O número de ocorrências envolvendo veículos registradas pela APVS cresceu aproximadamente 36% em dois anos, passando de 30.845, em 2023, para 41.842, em 2025. Em números absolutos, foram 10.997 registros a mais no período. O avanço ocorre em um contexto de ampliação da frota e de transformação na forma como os brasileiros utilizam seus veículos, com deslocamentos mais intensos e a presença cada vez maior do automóvel e de outros meios motorizados na rotina profissional de milhões de brasileiros.
Dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) mostram a dimensão desse universo: em dezembro de 2025, o Brasil contabilizava aproximadamente 129,1 milhões de veículos registrados. O volume reforça a crescente exposição de veículos e condutores às situações cotidianas de trânsito, embora, isoladamente, o aumento da frota não explique a evolução das ocorrências observada pela APVS.
O cenário não pode ser atribuído a um único fator. Além da maior exposição dos veículos no trânsito, comportamentos como falta de atenção, excesso de velocidade, desrespeito às regras de circulação e ultrapassagens indevidas seguem entre os fatores que ampliam o risco de acidentes.
Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) reforçam o peso do comportamento do condutor nesse cenário. Em 2025, foram registradas mais de 7,2 milhões de autuações por excesso de velocidade nas rodovias federais, além de cerca de 195 mil registros de ultrapassagens pela contramão em faixa contínua. Entre as principais causas de sinistros identificadas pela instituição, aparecem ainda a ausência de reação e a reação tardia ou ineficiente do motorista.
Para Kleber Vitor, superintendente da APVS, o crescimento das ocorrências precisa ser analisado dentro dessa mudança mais ampla na relação dos brasileiros com o automóvel. “Temos mais veículos em circulação, maior intensidade nos deslocamentos e uma utilização cada vez mais frequente do automóvel como ferramenta de trabalho. Ao mesmo tempo, fatores humanos continuam tendo um peso importante nos acidentes de trânsito”, afirma.
O envelhecimento da frota também exige atenção, principalmente quando a manutenção preventiva não acompanha a intensidade de utilização do veículo. Levantamentos do Sindipeças apontam uma tendência de envelhecimento da frota circulante brasileira. Em 2023, por exemplo, apenas 21,3% dos automóveis tinham até cinco anos de uso, enquanto 23,2% já possuíam mais de 15 anos. Quanto maior o tempo de circulação e a frequência dos deslocamentos, maior a necessidade de cuidados mecânicos, atenção às condições de segurança e adoção de práticas preventivas.
Outro ponto é o crescimento do número de brasileiros que dependem diretamente do veículo para geração de renda. Motoristas de aplicativo, profissionais autônomos e trabalhadores que utilizam o automóvel diariamente podem enfrentar um impacto que vai além do custo do reparo quando ocorre uma colisão, pane, roubo ou furto.
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgada pelo IBGE em setembro de 2026, ajuda a dimensionar essa realidade. Em 2025, cerca de 1,959 milhão de pessoas trabalhavam por meio de plataformas digitais no Brasil. Desse total, aproximadamente 1,2 milhão utilizava aplicativos de transporte de passageiros. Os números evidenciam como o veículo passou a representar, para uma parcela expressiva dos trabalhadores, não apenas um patrimônio, mas também um instrumento diretamente associado à geração de renda.
“O impacto de uma ocorrência pode ultrapassar o próprio veículo. Para quem depende dele profissionalmente, existe também o risco de interrupção da atividade e perda de renda. Isso torna o planejamento e a proteção patrimonial ainda mais relevantes”, explica Kleber.
Esse efeito pode ser ainda mais sensível quando o veículo permanece parado por vários dias. Além dos gastos relacionados à própria ocorrência, a indisponibilidade do automóvel pode comprometer jornadas de trabalho, entregas, atendimentos e outras atividades remuneradas, ampliando o impacto financeiro para famílias e profissionais autônomos.
A prevenção permanece como uma das principais formas de reduzir a exposição aos riscos. Manutenção em dia, condução responsável, atenção às condições das vias e medidas de segurança ajudam a diminuir a possibilidade de ocorrências. Entretanto, nem todos os imprevistos podem ser evitados.
Os indicadores reforçam, portanto, uma combinação de desafios. De um lado, uma frota numerosa e um cenário no qual milhões de brasileiros utilizam veículos diretamente em suas atividades profissionais. De outro, permanecem fatores relacionados à segurança viária, manutenção e comportamento humano. Nesse ambiente, prevenção, conscientização e planejamento tornam-se componentes cada vez mais importantes da mobilidade.
“É importante prevenir, mas também estar preparado para aquilo que não conseguimos controlar. Conhecer os serviços disponíveis e contar com uma proteção adequada pode fazer diferença quando uma ocorrência afeta não apenas o patrimônio, mas também a rotina financeira do proprietário”, conclui o superintendente.
